UM DIA NOS ANOS 50 - NA ERA DO RÁDIO

O Sr. Ricardo Nascimento é um brasileiro como outro qualquer, vivendo a doce era do rádio, nos idos dos anos 50, na cidade do Rio de Janeiro.

O dia começa um pouco antes da seis da manhã e o nosso herói prepara-se para fazer ginástica.... Ginástica pelo rádio....No comando, o professor Osvaldo Diniz Magalhães. Entre abdominais e agachamentos, o atleta radiofônico sua a camisa. Junto com ele, milhares de brasileiros que aprenderam a admirar a figura atlética de um professor que jamais viram e que cada um idealizava de um jeito diferente. Mais tarde, Oswaldo Diniz Magalhães seria homenageado pelos cariocas, com um belo bronze de seu busto, bem no meio da Praça Saens Peña, no Bairro da Tijuca.

O dia prossegue com a ida para o trabalho. Ricardo pega o bonde Andaraí-Carioca. Vai tranqüilamente lendo o nº 109 da Revista do Rádio que trouxe o cantor Carlos Galhardo na capa. A primeira matéria enche o coração do nosso leitor de alegria: NASCEU A FILHA DE JÚLIO LOUZADA! O pai em questão é nada menos que o locutor da Ave-Maria que, todos os dias às seis horas da tarde imobilizava o país, transformando as ondas de Rádio em uma imensa catedral ecumênica e dividindo o dia em antes e depois da prece, seguida de A PAUSA PARA MEDITAÇÃO, uma espécie de crônica na qual LOUZADA apresentava o drama de um ouvinte e ministrava conselhos. Para qualquer leitor da Revista do Rádio, a notícia tinha o mesmo impacto do nascimento da filha de um grande amigo. Mais tarde, Júlio Louzada foi personagem de uma famosa marchinha de carnaval: ME ACONSELHA SEU JÚLIO LOUZADA......

Prosseguindo a leitura, Ricardo, o nosso herói, sai do "estado de graça" para imaginar coisas picantes, quiçá escabrosas.... Emilinha Borba escreverá seu Diário na Revista do Rádio. A revista promete: "em nossa próxima edição iniciaremos a publicação realmente espetacular do Diário de Emilinha Borba. A querida intérprete de Dez Anos estará em contato com a sua imensa legião de fãs contando-lhes suas peripécias, emoções e pontos de vista." O que virá por aí?, pensou Ricardo....

O natural atraso da viagem faz com que Ricardo tenha que apertar o passo para chegar a tempo no escritório. O chefe o espera? Nada disso... O espera a edição matutina do Repórter Esso, na Rádio Nacional. Sem o noticiário, na voz de Heron Domingues, o dia não começava pra ninguém neste país.

Em casa, Dona Efigênia, esposa de Ricardo, prepara a criançada para ir ao colégio. Qualquer peraltice é corrigida com a terrível ameaça: Hoje, ninguém vai ouvir o Tio Janjão... As histórias de Oranice Franco, transmitidas nos finais de tarde pela Rádio Nacional fizeram as pequenas cabeças de algumas gerações, histórias do tempo em que os bichos falavam, brincavam, transgrediam e, no final, tudo certo.

O Cardápio do dia, no lar dos Nascimento, tinha por base as dicas de Helena Sangirardi, em seu programa de culinária ao alcance de todos. Desde o bolo matinal até o jantar que faria a alegria de Ricardo, após a jornada de trabalho e precedendo a expectativa do capítulo diário da novela das 8h. Ghiaroni era o autor do seriado do momento: A MÃE.... A dolorosa história de uma mãe que se vê separada do filho para protegê-lo. O rádio ficava encostado na parede principal da sala, disposto numa bancada mais ou menos alta, de forma que as crianças não alcançassem. Poltronas ladeavam o aparelho que, afinal de contas, comandava a vida de todo mundo. Era o maestro da grande orquestra de brasileiros que viviam e sonhavam ao comando de sua batuta. O giro daquele botão mágico trazia coisas que entraram para a nossa história.

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