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Uma
pequena fotografia, mostrada por um companheiro ao italiano recém
chegado ao Brasil e encarregado da construção de
uma usina elétrica, deflagrou um grande amor e o início
de uma família. Donato mostrou ao chefe a foto de Miquelina,
sua irmã. No bairro do Lava-pés, em Paraíba do Sul/RJ, nasceu Guioseppe Artidoro Ghiaroni, o quarto filho homem de Guioseppe Artidoro Ghiaroni e Miquelina Grieco. Depois vieram as filhas mulheres: Virginia, Palmira e Rosa. O lava-pés era o bairro dos italianos. Os vizinhos Ciodário e D`Ângelo vieram conhecer o menino, naquele dia 22 de fevereiro de 1919. Num tempo em que pobreza não se confundia com indignidade, Ghiaroni recebeu as primeiras lições de vida, dadas pelo pai, anarquista, grande prosador e amante da poesia, particularmente de Stecchetti, de quem carregava no bolso uma mini antologia..."Quando cadran le floglie e tu verrai"... Nesse mesmo livrinho, o patriarca anotava as suas idas e voltas, entre Paraíba do Sul, Paris, Roma e Nápoles. Miquelina se orgulhava de tão somente cuidar dos filhos, nestas viagens, já que o marido encontrava no armário o mesmo vestido e sapatos de passear, sem uma única ida à rua. Ghiaroni freqüentou o grupo escolar até a 4ª Série. Com 7 anos de idade foi trabalhar na cerâmica D`Ângelo carregando telhas na cabeça. Mais tarde, costumava brincar dizendo que "sempre ganhara a vida com a cabeça". A família, o bairro de imigrantes e a cidade do interior marcaram a vida do poeta. Aos 60 anos ele escreveu Quero voltar para casa e, a mais tarde, já no limiar dos 70, escreveu O Cantar da Água. Com 13 anos, Ghiaroni foi para a então capital da República, a cidade do Rio de Janeiro. Juntou-se ao irmão Dante, numa casa de cômodos e na luta pela vida. Antenado, não obstante a cabeça de poeta, percebeu que era importante aprender inglês. Ele que já aprendera tanto sozinho, lendo bons autores, enfrentou o idioma que poucos dominavam na época com um "linguaphone". Aprendeu o suficiente para tentar o grande salto. Enquanto isso, trabalhou como trocador de ônibus, boy e cozinheiro. No centro da cidade do Rio, atravessando a Rua Marechal Floriano, Ghiaroni viu pela última vez o pai. O encontro foi casual, já que a família continuava em Paraíba do Sul. O velho colocou uma nota de dez mil Reis no bolso do garoto, se abraçaram sem saber que aquela seria uma despedida maior. Uma semana depois, Ghiaroni e Dante ficaram sabendo da morte do pai. (DIA DOS PAIS). Apesar de todas as dificuldades os irmãos, Dante e Ghiaroni, deram um jeito e assumiram a família, trazendo a mãe e as três irmãs para o Rio de Janeiro. Tempos difíceis, Rosa e Palmira ainda se lembram. Quando o inglês já estava mais ou menos, Ghiaroni foi tentar um lugar de tradutor na Universal Filmes. O entrevistador percebeu que o jovem, embora aparentando segurança, não possuía prática na matéria. Olhou bem para o garoto de pouco mais de 18 anos e viu o quanto ele precisava daquele emprego. Reparou, também, o sapato furado cuja sola, num descuido, ficou a mostra. Deu ao menino Guioseppe o emprego, com uma condição: que todos os dias chegasse uma hora antes do expediente. Só não disse que ele, o chefe, também chegaria mais cedo para treinar o seu protegido. Assim foi que , com a ajuda providencial de Leo Reisler, Ghiaroni pulou para a outra margem do rio. Com a fome que tinha pelos livros e pelas palavras, passou de tradutor a redator em pouco tempo. Em seguida, arranjou uma vaga no Jornal A Noite. O poeta mineiro Oranice Franco, com seu jeito gostoso de lembrar das coisas, deixou escrito: "Quando vim de Minas, Ghiaroni foi das minhas primeiras amizades na terra carioca. Viera ele da sua querida Paraíba do Sul e nos conhecemos na redação de A Noite. Ser jornalista, no tempo, era profissão de quem não a tinha, e nos fizemos o Poeta e eu, jornalistas. Ele encarou a sério o meio de vida, pois - morto o pai - vira-se transformado em chefe de família. A velha máquina de escrever, batendo pelo grão de trigo, na época, não era apenas um belo achado poético." Tradutor e jornalista, Ghiaroni ia ganhando terreno e começando a colocar a distância que desejava entre ele e a miséria. As chances foram aparecendo e a todas ele se agarrava. Ainda muito jovem, foi escalado para ser o acompanhante de Orson Wells em sua memorável visita ao Brasil, aquela em que Orson ficou conhecendo Carmem Miranda e o Bando da Lua. Em 1943, após alguns anos de trabalho na Sidney Ross Propaganda , aos 24 anos, Ghiaroni foi contratado como grande estrela pela Rádio Nacional A esta altura, já publicara seu primeiro livro de versos: O Dia da Existência (1941). Famoso, com a vida já mais ou menos arrumada e o coração completamente dessarumado, Ghiaroni voltou à Paraíba do Sul, percorrendo o roteiro mais íntimo das suas memórias de infância e início da adolescência. Lembrou da moça bonita que ele via entrar, com as irmãs, nas sessões do Cinema velho. Era filha do Visconti, fazendeiro e ex-prefeito da cidade. Arranjou um cavalo e a cumplicidade de uma sobrinha da moça. Foi parar na Fazenda do Inema, onde Marina morava. Ela, sem que nunca ninguém tenha podido explicar, parecia estar esperando por ele. Do encontro nasceu um poema, História de um aperto de mão, e, depois, um casamento. Marina e Guioseppe se casaram, em 1945, na própria Fazenda do Inema. Foi um acontecimento importante, na pequena cidade. Paulo Tapajós, Haroldo Barbosa, Paulo Gracindo, Oranice Franco e outros nomes famosos estiveram na festa. Marina mudou-se para o Rio de Janeiro com o firme propósito de criar sua própria família. Transformou-se na companheira incansável e dedicada de um poeta incansável, trabalhador compulsivo, com a cabeça repleta de sonhos. Ela o amou acima de todas as coisas e acontecimentos. No último livro publicado, A Máquina de Escrever, em 1997, ele dedicou um exemplar para ela, escrevendo e fazendo as duas filhas assinarem: Para Marina Ghiaroni, nossa esposa e mãe, por meio século de dedicação com a maior dignidade, os agradecimentos comovidos de Guioseppe, Marina e Regina. Rio, julho de 1977. No tempo do rádio, os autores eram populares como hoje são famosos os apresentadores de programas, chamados "cabeças de show". O nome de Ghiaroni tornou-se uma marca. Assinava, pelo menos três programas semanais, além de uma novela diária, em horário nobre. Dos programas, vale a pena lembrar; TANCREDO
E TRANCADO PEÇO
A PALAVRA A
VIDA É UMA CANÇÃO O
AMOR DE SUA VIDA A
CRÔNICA DA CIDADE O
LADO CLARO DA VIDA Em 1945 e, depois, em 1948, Ghiaroni publicou mais dois livros de poesias: A Graça de Deus e A Canção do Vagabundo. As novelas, entretanto, foram o ponto alto da carreira do autor. Indiscutivelmente o brasileiro gosta de novelas. A paixão pelas histórias seriadas começou, na verdade, no tempo do rádio. Lacrimosas e apaixonantes, as novelas possuíam o condão de reunir toda a família, em volta do rádio, às 8:00 da noite. Havia, também o horário vespertino. Mas, as melhores estrelas brilhavam de noite. Desafiando a lei das possibilidades, Ghiaroni assumiu uma empreitada considerada impossível de ser concretizada. A de radiofonizar, de forma ecumênica e clara, o Antigo Testamento. O maior livro de aventuras da humanidade e, ao mesmo tempo, o mais santo dos livros, em forma de Rádio Teatro. Determinado e com uma capacidade de trabalho fora do comum, o poeta e radialista debruçou-se sobre a Bíblia e seu exegetas e escreveu O ROMANCE DA ETERNIDADE. Partindo do nada (No princípio criou Deus os Céus e a terra...), a saga do povo hebreu e semente do catolicismo foi contada em toda a sua grandiosidade aos ouvidos atentos de milhares de brasileiros. Para realizar a obra radiofônica, Ghiaroni trabalhou ao lado de Padres, Rabinos e Pastores de nomeada, naquela época. A visão ecumênica do trabalho foi possível através de discussões das diferentes visões do texto Bíblico. Ainda no Rádio, Ghiaroni foi responsável pela criação e produção da Vida de Cristo, rádio teatro levado ao ar por mais de 30 anos, pela Rádio Nacional. O primeiro Network da história da radiodifusão, no Brasil. Reunindo um elenco fabuloso, sob a direção de Floriano Faissal, é uma obra de rara beleza e importância. O ocaso do Rádio levou Ghiaroni, como muitos outros, para a televisão. Afinal, a Máquina de Escrever tem sido o seu instrumento de trabalho. Trabalhou TV Tupi, TV Rio, TV Excelsior, TV Continental, TV Educativa e aposentou-se, aos 75 anos de idade, após quase 20 anos de trabalho na TV Globo. A qualidade e a diversidade da obra de Ghiaroni é o que causa maior impressão a seus admiradores. Fez rir e fez chorar. Criou um monte de histórias e alguns slogans famosos como: Fora de Série; Pequeninas, mas resolvem...Soube ser longo e breve, alegre e triste, poeta, humorista, jornalista e pesquisador. Um operário da Máquina de Escrever, a quem dedicou uma belíssima poesia... Hoje, Ghiaroni está com 87 anos (2006), mora na cidade do Rio de Janeiro e alcançou o merecido "ócio com dignidade", meta almejada por ele e bravamente conquistada. Clique aqui para fazer o download do curriculum Regina
Ghiaroni *** |